domingo, 1 de outubro de 2017

Chá da Tarde no Teatro São Pedro: deleite único!

E estamos em outubro, tempo de alta primavera e último mês para saborear as delícias do Chá da Tarde do Teatro São Pedro, em Porto Alegre. 

A Chef Andréa Schein é a chef consultora do chá, evento que acontece no Foyer do Teatro, todas as quartas-feiras, de maio a outubro, desde 2010. E para quem conhece a Chef Déa: sim, seus Macarons são parte  fundamental da mesa de deleites. O chá é realizado pela equipe do Restaurante Du´Attos, e ocorre sempre  neste dia da semana, a partir das 16:00, finalizando às 19:00. Nas noites de espetáculo no Teatro São Pedro, o horário vai até 20:00 ou 21:00.

Ao chegar no Foyer, o tempo do relógio dá lugar a um giro diverso, mais lento, mais espichado,que amplia o nosso potencial de sentir, de perceber. Pelos sentidos, pelas emoções, pelas lembranças. Então, não sei por quantas horas estive lá, saboreando cada quitute, cada doçura. A sensação é de estar fora da própria cidade, de ser viajante de um espaço desconhecido, único. Como se, de tanta beleza no aspecto, de tanta profundidade no aroma e nos gostos, de tal maciez ou crocância nas texturas, fosse possível estar apenas ali, uma cápsula de experiência fora de tudo. Planeta-sabor

Acontece que o conjunto da obra ultrapassa o degustar. A atmosfera provoca o sentir, através de elementos como as cortinas longas, os lustres de cristal, as fotografias expostas, as janelas com uma paisagem calma, perene, as mesas e as cadeiras, os pratos de servir doces e salgados na mesa. Tudo importa. Não apenas se tem a sensação de estar em outro local, mas também em outro tempo, em plena corrida de uma quarta-feira de tarde do século XXI. O convite é para permitir-se a vivência de puro deleite, sem pensar em agenda, em dieta, em preocupações que habitam o mundo fora dali. Trata-se de um salão de chá, daqueles para onde a gente vai de alma entregue às perdições. Inteiros no prazer de comer, de partilhar, de beber o chá acompanhando sabores antigos. Esse tempo outro não é só o do calendário, é sobretudo aquele da nossa memória gustativa. Reencontramos, na mesa redonda, ampla e convidativa, receitas que a memória coletiva manteve vivas, como a 'pizza de sardinha da Vó', de tantos de nós. 

Falando nisso...A escolha do cardápio do chá prima por resgatar os doces e  os salgados de diferentes épocas, as lembranças afetivas dos cadernos de cozinha familiar e os sabores que permanecem intactos no território da emoção, quando damos a primeira mordida. E a segunda, e a terceira. Essa culinária de resgate tem, em seu eixo, componentes de que lembramos e gostamos como indivíduos, mas também como coletivo. Ao nos recordarmos desse ou daquele doce, nos sentimos parte de um tempo representado por aquele registro. Estamos em um momento diverso, para onde  só foi possível viajar graças ao Passaporte-sabor.

Em cada prato, assim como nos lustres e nas cortinas, estamos entregues ao ambiente, nos descolamos da 'realidade' de uma quarta-feira comum e, quando percebemos, estamos em um cenário de antigamente. Minutos e horas demoram mais pra passar. O sentimento de "não tenho tempo a perder", que muitas vezes nos toma durante a semana de trabalho, ali fica de fora. Simples assim, não é convidado. Dá lugar a outro, oposto: o "não tenho tempo a contar". O que mede o quanto duramos em volta da mesa é a nova rodada de chá, a próxima volta ao redor das delícias, a prosa que continua enquanto não escurece de verdade através da janela. Mas até disso a gente esquece: de olhar pela janela, tão pleno de magia que  fica o Foyer. 
Magia antiga. 
Magia lenta.
Magia dos sentidos.
Magia de um prazer manso, que desconhece o correr frenético.
Uma quarta-feira à tarde.

Mas quem pode se permitir um luxo desses?
Todos nós.
E este é o ponto: é preciso se permitir a parada, 
as férias de um turno para o repouso de um chá da tarde. 
No outubro de alta primavera.

Vamos?
Ainda teremos chance nos dias 4, 11, 18 e 25 de outubro!!!
Experiência imperdível!

Informações:
Chá da tarde do Teatro São Pedro
Quando?
Todas as quartas-feiras, 16:00-19:00 (salvo em dias de espetáculo, com horário ampliado).
De maio a outubro!

Onde?
No Foyer do Teatro São Pedro
Praça Marechal Deodoro, s/n
Centro Histórico/Porto Alegre/RS
Fones: (51) 32275100
(51) 32275300
Com carinho,
Betina
Chef Andréa Schein
Macarons da Déa Schein
"Déa Macarons"

Doçuras mil
Dá pra escutar o som da mordida no crocante da massa folhada!
Cantucinni: biscoitos italianos para saborear no chá
Maciez e crocância 
Pra dar vontade de repetir!
Destaque para o rocambole de laranja: uma perfeição em todos os sentidos.
E para todos os  cinco sentidos.
Quindim!!!!
Cenário especial: fim de tarde pela janela
-entrada no Foyer-
Salão de chá
A Chef Déa e eu, Betina
Passeios pelo tempo
Dá pra resistir?
Sabores antigos
Mesa de resgate: evocando memórias
Algumas dessas delícias são nossas velhas conhecidas:
Torta fria!
O chá em movimento
Macarons da Déa: tons suaves e sabor sublime
Macarons da Déa: textura impecável























quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Ciclos de estudo e de prática do Cucina in Prosa

Quer conhecer as atividades do Cucina in Prosa?

Nasceu há um mês, mas vinha sendo criado ao longo deste ano de 2017, como um centro de estudos e experiências nos campos da interface entre a Enogastronomia e das Humanidades. O Centro promove a aprendizagem e a partilha de conhecimentos e de convivência. Além disso, um relevante foco de estudo será dado à Neurogastronomia e à Neuroenologia, campos de interface entre as Neurociências e a Enogastronomia a partir do trabalho do pesquisador Gordon Shepherd.


Em breve, a programação completa do ciclo de 2017! 


Com carinho,
Betina

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ciclo de Estudos: "A cozinha como espaço físico e simbólico"!

       Inaugura em setembro a Cucina in Prosa- experiências e narrativas em Enogastronomia. Bom, o que é? Em linhas gerais, um centro de estudos e de práticas ligado à enogastronomia em sua interface com as Humanidades. 
      A iniciativa nasceu em mim há um bom tempo, durante a escrita de minha Dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura na PUCRS, "À moda da casa: a cozinha como espaço físico e simbólico em 'O arroz de Palma', 'Por que sou gorda, mamãe?' e 'Quarenta dias'". Durante a escrita e a pesquisa para essa Dissertação, fui a um congresso internacional em Santiago de Compostela, cuja temática era a interação entre a gastronomia, a língua e a literatura, em setembro de 2016. Lá, as comunicações e palestras envolviam as Humanidades ligadas ao cozinhar, ao comer e ao beber: isso foi expresso de forma tão íntima que me apaixonei ainda mais por essa ligação entre os campos. Minha comunicação oral no evento foi sobre o catalão Josep Pla, que, em suas andanças e escritos, produziu vários textos sobre percepções e memórias gastronômicas de seu território, o Empordà.
         Por fim, a oportunidade de desenvolver o tema dessa interface e de apresentá-lo na Oficina de Culinária Cultural do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria foi um fator de grande motivação para dar início ao lançamento do Cucina in Prosa!
      Foi então, a partir dessas experiências de estudo, que comecei a planejar o ciclo de estudos "A cozinha como espaço físico e simbólico', que explico no texto abaixo. Concomitante a este, que terá encontros em um sábado ao mês, ministrarei às quintas-feiras à tarde o ciclo semanal de práticas narrativas em enogastronomia. Ambas as programações estão ligadas pelas temáticas escolhidas para cada um dos meses, de setembro a dezembro de 2017.

_____________


Cucina in Prosa- 
Experiências & Narrativas em Enogastronomia

Ciclo de Estudos:
‘A cozinha como espaço físico e simbólico’
Coordenação: Betina Mariante Cardoso

Atividades teóricas: um sábado ao mês, 09:00- 13:00
Propósito do ciclo:

O estudo da cozinha como espaço físico e espaço simbólico visa promover um campo lúdico e reflexivo sobre sua representação em nossa História da Humanidade e em nosso século XXI. Em essência, o motivo desse ciclo é a busca por ampliar a conscientização sobre o papel de atos rotineiros, mas plenos de significado,  que o cozinhar e o comer desempenham em nossa vida e em nossas interações sociais. ‘Que tal combinarmos um almoço?’, ‘Vamos marcar um café?’, ‘Quando sai nosso churrasco?’,  ‘Vamos cozinhar pra vocês!’, ‘Vamos abrir um vinho?’: todas essas são expressões triviais, cujo pano de fundo envolve o comer, o beber, o partilhar. Comensalidade, ou ‘comer na mesma mesa’, demanda a disponibilidade para o encontro, a fim de celebrar o ato mais individual e, ao mesmo tempo, mais social: o comer.
No exterior, o estudo da cozinha em sua ligação com as Humanidades tem sido alvo de inúmeras publicações, simpósios e congressos internacionais, sob o título de ‘Food Studies’. Para o que serve essa interface? O vínculo do cozinhar, do comer e do beber com a História, a Antropologia, a Literatura, a Filosofia e as Artes pode consistir, atualmente, na busca do sujeito contemporâneo pela compreensão de suas raízes, através da relação com a cozinha. Essa busca pelo Humano em uma área em franca evolução, como a Gastronomia do Terceiro Milênio, mostra que há um interesse genuíno pelo resgate da ancestralidade, da força anímica do cozinhar e das ações que este envolve.
O presente ciclo de estudos visa apontar tendências, promover reflexão e discussões, conversar sobre atributos humanos no cozinhar e no comer e, sobretudo, oportunizar a partilha leve e prazerosa entre os participantes. O ciclo é composto de três pilares: para cada módulo de discussão teórica, haverá a atividade prática (Experiência) correspondente, na ocasião do próprio módulo ou em data diversa, e a aula de práticas narrativas no tema do mês. Haverá, também, três aulas especiais para a degustação de vinhos e reflexões temáticas, na Vinho & Arte. Cada atividade é independente, sendo possível o participante escolher inscrever-se naquelas que forem de seu interesse.

Os temas serão: setembro: cozinha, adega e sentidos; outubro: cozinha, adega e memória; novembro: cozinha, adega e linguagem; dezembro: cozinha e comensalidade.
Vitrine da tenda da Dona Olga,
 no "Mercado de Abastos", de Santiago de Compostela
Cucina in Prosa- Experiências & Narrativas em enogastronomia é o projeto que une os temas alusivos à cozinha e à enologia, em sua ampla gama de representações, ao campo das Humanidades. Tudo criado e desenvolvido com alegria, com entusiasmo e com o estudo sistemático dessa interface. O presente projeto resulta de minhas descobertas e aprendizados a partir da Dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura (PUCRS/2016), cujo tema foi a cozinha como espaço físico e simbólico na literatura brasileira contemporânea. Além disso, a leitura de temáticas em ‘Food Studies’ desde 2011, a inauguração do Blog ‘Serendipity in Cucina” e do livro “Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras”, em 2012, e a pesquisa sobre os sabores e raízes gastronômicas da província de Girona, na Catalunha, desde 2014, também representam minhas motivações para dar partida ao Cucina in Prosa.
Essa é a primeira de nossas atividades, e você é convidado a partilhar!
Seja muito bem-vindo!
Abraços,

Betina Mariante Cardoso


No post de amanhã, a programação dos módulos!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A cozinha como espaço físico e simbólico: um 'dedo de prosa' sobre o Módulo teórico da oficina de culinária cultural

Hoje venho falar sobre minhas reflexões para o módulo 1 da oficina de Culinária Cultural do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria da APRS. Abaixo, alguns elementos que norteiam minha apresentação, dia 18 de agosto, para a qual venho pesquisando há três meses. E está chegando a hora! Há muitas coisas interessantes nesse campo que é tão parte de nossas vidas, tão entremeado em nosso dia-a-dia, que muitas vezes não lembramos do quanto guarda das raízes dos ancestrais.
 Por ser uma temática muita ampla e apaixonante, presente na história e na rotina de todos, fiz questão de transformar o conteúdo em uma prazerosa conversa, ilustrada com imagens e tecida com humor e leveza. A ideia, na oficina, não é teorizar ou promover reflexões profundas, mas sim pensar junto com os participantes, conduzindo os pontos a serem abordados, provocando a prosa. A ideia é que seja como aqueles almoços que se alongam tarde adentro, em que um fala daqui, outro fala dali. Claro, minha apresentação é da parte teórica da oficina, portanto embasada em referências e em bastante pesquisa, mas meu trabalho ao prepará-la foi, sobretudo, de tradução dessa linguagem teórica para a conversa solta e informal que a ocasião pede.
 O texto abaixo reúne trechos de minha Dissertação de Mestrado em Letras (FALE/PUCRS), intitulada "À moda da casa: a cozinha como espaço físico e simbólico em 'O arroz de Palma', 'Por que sou gorda, mamãe?' e 'Quarenta dias', defendida em 01 de dezembro de 2016. Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que muito do que motivou o tema do módulo 'A cozinha como espaço físico e simbólico' foi a bagagem de descobertas, de leituras e de aprendizados que a experiência do mestrado me propiciou, durante a escrita e os estudos, principalmente no segundo ano. Ao unir fragmentos, acabei por montar um novo texto, que hoje expressa meu sentir para a fala da oficina.
O ato de cozinhar é parte ancestral da nossa existência como seres humanos. Desde os tempos primitivos o homem transforma o ingrediente cru em alimento cozido. Comemos por necessidade nutricional, mas também por outros motivos: comemos para sentir prazer com um bom prato, para socializarmos, partilhando esse prazer com outras pessoas, para evocarmos lembranças de família e as nossas próprias, com sabores que fazem parte de nossa bagagem emotiva. Escolhemos o que comer, aprendemos a gostar mais desse ou daquele doce, somos conhecidos pelo quitute que preparamos para os amigos. Adoramos canela, mas detestamos alecrim. A cozinha faz parte da construção de nossa identidade e da memória que vamos formando a partir das experiências, vivenciadas sozinhos ou em grupo.
E mais. A cozinha é o espaço onde habitam: forno, fogão, geladeira, pia, pratos, talheres, guardanapos, panelas, travessas, caderno de receitas, ingredientes, chimia de uva, pudim, doce de leite e ambrosia. E lembranças. Muitos de nossos registros têm sabores próprios. Recordamos essa ou aquela vivência porque sua representação é ligada a um gosto, a uma textura, a um aroma. Houve aquele doce de ovos que experimentamos em uma única e inesquecível ocasião. Vale evocar também o faqueiro de uma avó, presente de casamento, ou a panela de fondue comprada com orgulho, fruto do primeiro salário da monitoria, na faculdade. No território físico da cozinha, a memória tem corpo, tem existência material através dos ingredientes, dos instrumentos, dos eletrodomésticos, da receita de família preparada para o almoço. Acima de tudo, a memória tem respiração.  
O alimento torna-se uma fatia das histórias que vivemos e das emoções que sentimos.
Então, quando pensamos em cozinha, ao que realmente estamos nos referindo? Ao espaço físico que essa ocupa na casa, onde estão o forno e o fogão, o refrigerador a pia? Aos utensílios, como talheres e pratos, panelas, eletrodomésticos, peneira, travessas, e assim por diante? Aos ingredientes, em parte mantidos na despensa, enquanto outros devem permanecer refrigerados? Às receitas de quitutes, de doces, de refeições, escritas a mão em cadernos familiares, ou colhidas da Internet ou copiadas no programa televisivo de famosos chefs? Às recordações de vivências passadas com as avós, que nos ensinavam o saber culinário pelo clássico ‘botar a mão na massa’? À cultura de um povo pelas comidas que prepara?
A cozinha contempla todos esses elementos, do simbólico ao concreto; da antiguidade mais remota aos tempos hipervelozes de hoje, com diversas mídias dirigidas aos temas culinários; do conforto emocional que representava ao glamour que vem atingindo com o avanço da gastronomia como expressão de status social e econômico, no século XXI.
 Mas a cozinha do Terceiro Milênio atravessa o glamour e nos surpreende, fazendo um giro na história: pois não é que estamos voltando às práticas ancestrais, à força da horta e do pequeno produtor, à valorização do comer à mesa e da comensalidade? Nesse giro, que acaba por unir esses elementos opostos em um só tempo, podemos ter uma ideia aproximada sobre o que estamos vivendo em termos de gastronomia. Atravessamos o domínio do fogo, chegamos ao nutrir e agregar, tendo a comida no centro do convívio, descobrimos, inovamos, retrocedemos, avançamos. Chegamos. E o que nos conta a cozinha do século XXI?
Esse é um dos tópicos do módulo 1 e, confesso, o que mais me exigiu pesquisa e reflexão, justamente por conter, em si, tantos contrastes. Como em toda receita desafiante, foi uma delícia preparar: com calma, com antecipação, com todos os ingredientes reunidos no ‘mise en place’ antes de dar início ao ‘mãos-à-obra!’
Será uma grande alegria a oportunidade de conversar com os colegas e seus familiares, na oficina de sexta-feira no Valle Rústico, sobre esse tema tão pertinente a todos nós. Porque podemos gostar ou não de cozinhar, e  podemos saber ou não, mas o ‘prazer de comer’ e o ‘prazer à mesa’, como chamou o renomado escritor e gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin, são parte das nossas vidas. A atividade é sobre esse campo vasto, do cozinhar ao comer, do degustar ao refletir, do escutar ao partilhar, do relembrar ao descobrir.
Esperamos vocês, colegas e familiares que estarão em Bento Gonçalves, no XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria, para essa experiência!
Com carinho,
Betina

O espaço físico e o espaço simbólico da cozinha, em imagens que resgatei aqui e ali:



























sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Entrevista com Rodrigo Bellora, Chef e proprietário do Restaurante Valle Rústico- Parte 2

As perguntas e respostas abaixo são a segunda parte da entrevista que fiz com o Chef e proprietário do restaurante Valle Rústico, Rodrigo Bellora. Agradeço muito ao Rodrigo pela colaboração e pelas respostas e reflexões tão relevantes que apontou ao longo da conversa, tanto na primeira parte, postada ontem, quanto nesta. É possível compreender seu modo de pensar a cozinha, e, além disso, é possível conhecer muito do que ele traz em termos de contribuições culturais e históricas sobre alimentação. Ouvindo suas respostas, tive a oportunidade de aprender, de pensar, de contextualizar a gastronomia sob novas perspectivas.

 Precisei ouvir pausadamente, para realizar a transcrição e para redigir sua fala de modo fiel, e isso fez com que eu pudesse prestar muita atenção em todo esse aprendizado que ele nos propicia. E, mais ainda, pude conhecer, no modo de sua expressão, o afeto verdadeiro pela comida, pela mesa, pelos produtores, pelo bem-receber. Pude ouvir seu modo de pensar, de encadear ideias, de fazer associações, de tratar de elementos dos quais fala com a mesma naturalidade e o mesmo respeito com que trata dos ingredientes, dos sabores, dos sentidos. Uma naturalidade espontânea e verdadeira, coloquial e atenta, dando aquela sensação de conversa ao redor da mesa, de que falei ontem. Essa naturalidade, ou chamemos como a simplicidade e a humildade que ele refere em  uma suas respostas, combinam com seu modo de ver a gastronomia do nosso tempo, essa 'gastronomia de verdade'. 

O respeito ao comensal, ao cliente, ao produtor e à equipe é o mesmo com que ele trata o interlocutor, o leitor da entrevista, procurando responder com reflexão genuína, completa, cada uma das trinta perguntas feitas. É, sobretudo, o respeito ao humano, na partilha que ele tanto valoriza em seu trabalho e no modo de viver a culinária. Acho interessante relatar que enviei as trinta perguntas por email, sugerindo que ele respondesse apenas àquelas com que mais se identificasse, mas houve um gratificante empenho de sua parte: respondeu a todas trinta, via áudio do WhatssApp, permitindo que sua fala transmitisse seu modo de sentir tudo o que a cozinha representa em sua vida, em sua história. 

       Assim, compartilho, com os leitores, a transcrição de cada uma das respostas da segunda parte da entrevista.

__________________

      16.  Qual o papel das avós na tua descoberta da cozinha e no teu contato com os ingredientes?
Eu nunca tive um contato muito grande com meus avós, então talvez não sejam eles diretamente que tenham me trazido isso, mas indiretamente, com certeza, foram, porque foram  eles que ensinaram meus pais; foram  eles que, querendo ou não, me deram esse contato com a cozinha.

      17.   Qual teu prato mais elogiado?
Os pratos mais elogiados? Bom, a gente muda tanto de prato, tem tanto prato novo todos os dias, todas as semanas, que é até difícil, mas os pratos icônicos do restaurante são o risoto de cogumelos, o matambre defumado, a costela, o espaguete de xuxu...basicamente são esses, são vários e mudam muito; às vezes o restaurante tem pratos que ficam só três dias, então não conseguem ser tão lembrados assim.

     18. Um sabor a que não resistes?
Sabores a que eu não resisto são o frescor e o defumado.

19.  Qual é, para ti, a culinária ideal?
Pra mim, a culinária ideal é aquela que é verdadeira, é de dentro, não é fake, não é falsificada, não é forjada; algo que realmente acontece e que naturalmente é bonita.

     20. Percebes a proeminência de um dos cinco sentidos a serem evocados nos pratos que elaboras?
Isso é muito importante, muito interessante trabalhar o mise en place, o mise en scène, e esse mise en scène principalmente na parte da sala é super importante, é onde a gente vai fazer com que exista todo um cenário propício para ele degustar aqueles pratos e sentir; enfim, trabalhar os cinco sentidos é o desafio de qualquer chef. A  gente tem que despertar novas sensações. A partir do momento em que nós começamos a dizer que trabalhamos com experiências e que vendemos experiências, os cinco sentidos são realmente muito importantes. Não existe um, claro que o sabor é o que a gente mais fala, mas antes do sabor existem os aromas, e eu sempre falo na cozinha: “galera, não podemos deixar que todo o aroma dos pratos saia pela coifa, esse cheiro gostoso que a gente tá sentindo aqui dentro da  cozinha ele precisa chegar lá pro cliente.” Então, é um desafio, é um desafio trabalhar com todos esses cinco sentidos e fazer com que a gente consiga trabalhar isso com harmonia pro cliente, sem se sobressair nenhum.

      21.  Existe alguma região, no mundo, que inspire tua gastronomia?
Com certeza, a maior inspiração que eu tive na cozinha foi na Itália, e foi a partir de uma viagem pra Itália que mudou a minha forma de pensar os pratos e pensar o restaurante; é o norte da Itália, enfim,  foi um momento bem importante pra mim.

 22. Como aconteceu teu contato com o Slow Food e de que forma o Movimento influencia os pratos que elaboras?
Slow Food então nasceu...na verdade, eu já trabalhava de uma maneira e eu descobri que existiam mais de cem mil pessoas que pensavam que nem eu e que esse movimento se chamava Slow Food, foi aí que eu comecei a fazer uma ligação com o movimento, e ele influencia demais, não digo nos pratos, mas na minha maneira de pensar esses produtores e tudo isso; toda a relação que talvez eu demorasse muito mais tempo pra criar com o produtor, com o ingrediente, com a tradição, com o resgate técnico, as receitas, o resgate de sementes, de ingredientes, a Arca do Gosto e tantos projetos bacanas dentro do Slow Food, talvez isso demorasse muito mais pra acontecer de forma natural, então foi um alavancador e um acelerador de um processo que pra mim foi bem importante

 23.  Podes nos contar da tua formação? De que forma esta influenciou a criação do Valle Rústico?
Eu sou formado então na verdade em Turismo, tenho uma Pós-Graduação, especialização em gestão empresarial,  depois, diversos cursos na área da gastronomia; foi bem importante essa minha formação pra criação do Valle Rústico no sentido de a gente prevalecer, de ter um trabalho muito grande com a hospitalidade, com o bem-receber, com o conforto do cliente, então isso foi determinante sim em  muitos momentos mais do que pra criação do Valle Rústico, mas pra eu ter um pouco de sucesso com ele.

      24. Um prato da tua história de vida que ficou na memória afetiva?
Falando sobre memória afetiva...bom, acho que um prato que ficou na minha memória com certeza é aquele que eu levei pro Mesa...são tantas as polentas frescas, polenta de milho fresco, ou de um milho recém moído, e o lambari frito, recém pescado do riacho, isso pra mim é memória afetiva.

    25.  Qual a relação entre a natureza e a tua cozinha? Como aconteceu a definição “Cozinha de natureza”?
Bom, essa é pergunta da cozinha de natureza... nasceu porque em muitos momentos as pessoas  pediam: “ok, tudo bem, mas o que que tu faz, Rodrigo, é cozinha uruguaia, é argentina, é italiana?” Bah, não é nada disso, é uma cozinha completamente nova, de uma noção que a gente está criando, completamente diferente, e aí nasce o termo, então, “cozinha de natureza”, pra gente conseguir determinar e definir um pouco como era a forma como a gente estava cozinhando, a relação que a gente tinha com toda essa cozinha.

     26. O que é comida para ti?
O que é comida pra mim? Bom, é bem importante isso, porque acho que não é comida que as pessoas buscam no restaurante, e por isso que eu digo que a gente vende experiência, a gente chama de comida, porque comida é o que a gente precisa pra alimentar o corpo; eu digo que quando a gente quer oferecer uma experiência pros nossos clientes é muito mais do que isso, e sim, é a comida pra alimentar o corpo e a alma.

      27. Qual tua sugestão a quem deseja começar a cozinhar?
Minha sugestão pra quem deseja começar a cozinhar é, enfim se for isso como profissão, a primeira coisa é entrar em uma cozinha profissional e entender um pouco da rotina como se vive. É muito difícil, tem pessoas que trabalham comigo às vezes há três anos, pessoas que eu adoro, que cozinham super bem, mas que não aguentam essa rotina que é bem pesada.

     28. O que a mesa representa pra ti?
Bom, o que a mesa representa pra mim? Essa eu podia acho que ficar uma hora aqui falando, é uma das coisas que eu adoro falar, que eu falo quase sempre nas minhas palestras. Acho muito importante a gente pensar, todo o pessoal da gastronomia, ou que trabalha com comida, pensar o que que representa a mesa. Mas eu vou tentar resumir, de maneira sucinta, sem contar toda a História da Alimentação e do que eu entendo de mesa... A mesa pra mim é uma elevação do plano terra, enfim, tudo o que é produzido na terra é servido na mesa, então é como se  a gente elevasse tudo aquilo que está lá no chão. Então é essa elevação, além de toda a parte de confraternização, de partilha, de igualdade em cima da mesa; apesar de ter hierarquia em muitas mesas, tem uma igualdade, no sentido de que mesmo que o pai comece a comer antes, sei lá, que seja o primeiro a se servir, ou que as mulheres sejam as primeiras, enfim, de qualquer maneira todos comem a mesma comida, tu entende? Então toda essa parte de igualdade, de confraternização, de partilha...a gente só compartilha pratos com quem a gente confia. É que nem o cachorro, ele não divide carne dele com quem não confia, de quem não gosta...Acho que isso é... enfim...se quiser até posso falar muito mais sobre isso porque é um tema que eu adoro falar. 

     29.   Como vês a cozinha do Século XXI? Há algum ponto que a defina, para ti?
A cozinha do século XXI...a gente está num ponto...o mundo dá voltas e toda a História gira, de forma que  as coisas se repetem muitas vezes. A gente está num momento em que se tem esse retorno à gastronomia de verdade, à comida de verdade, ao sabor de verdade das coisas, e isso já aconteceu...talvez seja a quinta ou sexta ou décima vez dentro da História. Assim como era o momento anterior a  esse que vivemos agora, que era o momento dessa cozinha Fusion, toda essa Cozinha Molecular, e tudo o mais, onde a beleza do prato é mais importante do que o sabor... isso  é um retorno, isso na Idade Média, nos grandes banquetes, isso também era assim, as pessoas tinham mais interesse em uma bela apresentação para aqueles banquetes, pra impressionar as outras pessoas, do que em uma relação com o sabor propriamente dito. Então, isso tudo na História se repete muitas vezes, mas a gente está num momento bem bonito, que é de recuperação, que é de resgate, que é de retorno, e principalmente do sabor verdadeiro  e original das coisas, mais fresco e melhor.

     30.  Espaço sem pergunta: alguma reflexão que queiras deixar para os leitores.
Bom, o último pedaço então é esse, um espaço pra reflexão...enfim, acho que eu falei bastante...mas é muito importante a gente pensar e conhecer a origem do nosso alimento, conhecer o produtor, conhecer o caminho de onde veio a tua comida...a responsabilidade que a gente tem com a comida é tão grande que a gente faz isso três, quatro, cinco, seis vezes por dia, então é super importante a gente ter um cuidado e dedicar um tempo pra isso, não simplesmente comer em dez minutos e abandonar. Então acho que a gente tem que ter esse resgate, lembrar que a gente é aquilo que a gente  come, que o nosso alimento pode nos curar, que pode nos salvar, enfim...a gente não precisa estar doente. Eu acho que ter novamente essa preocupação. Antigamente a gente comprava o queijo do tiozinho que a gente sabia como ele produzia e que sabia que ele produzia de uma maneira limpa; a gente comprava a salada do outro que a gente sabia que ele cuidava da horta de uma maneira legal, que os gatos não entravam na horta. Acho que é esse retorno que a gente precisa, conhecer realmente de onde veio teu alimento, não são pacotes nem selos.

            ______________________________

Mais uma vez, agradeço ao Rodrigo Bellora por toda a dedicação e partilha de suas vivências e conhecimentos, em nossa entrevista. Foi uma riquíssima oportunidade de pensar a cozinha, a comida, o comer, o partilhar. Acredito que a conversa tenha deixado, no sentir de cada um, como também no meu, muitas sementes de reflexão sobre a gastronomia e os espaços que ocupa em nossas vidas.
Aos leitores do Blog, agradeço pela visita! 

Com alegria,
Betina